Opinião
"Inconcebível": o que a fala de Leila revela sobre a pressão no Verdão
A presidente do Palmeiras chamou de inconcebível uma eventual queda na Libertadores e mandou recado à torcida. A escolha das palavras diz muito.

"Inconcebível." Foi a palavra que a presidente do Palmeiras escolheu — e não foi para descrever as últimas semanas do time. Foi para dizer o que acha de uma eventual queda na Libertadores. Numa entrevista durante a homenagem a Gustavo Gómez no museu do clube, Leila Pereira falou de torcida, de crítica e de cobrança, e nem tudo no que disse conversa entre si. Vale destrinchar.
O cenário em que ela abriu a boca
Antes da fala, o caldeirão: três empates seguidos no Brasileirão derreteram parte da folga na liderança, a derrota em casa para o Cerro Porteño jogou o Verdão para o segundo lugar do grupo na Libertadores, e a principal organizada subiu o tom pedindo a saída de Abel Ferreira. É nesse contexto de pressão que a presidente se manifestou.
O recado à torcida
Leila foi direta: disse que não administra o clube pela opinião de uma ala da torcida, que age pela razão, e que crítica que considera não construtiva ela "deleta na hora". Ainda cutucou, afirmando que essa parte da torcida não apareceu para comemorar o título paulista e só se manifesta nos momentos difíceis.
Em parte, a lógica se sustenta. Dirigente não pode ser passional, e o torcedor é por definição. Time grande não se governa pelo grito da arquibancada num domingo ruim. Até aí, posição defensável.
Onde a fala escorrega
O problema aparece quando ela trata o Paulistão como "inexpressivo" para quem critica. Porque o mesmo discurso que minimiza a cobrança acaba minimizando o próprio título. Não dá para usar a taça como escudo num dia e tratá-la como troféu pequeno no outro. Coerência é o mínimo que se cobra de quem comanda.
A contradição que ninguém pode ignorar
E aqui está o ponto central: a própria Leila admitiu que a atuação contra o Cerro foi abaixo do esperado, admitiu o incômodo com a derrota e cravou que considera inconcebível não passar de fase na Libertadores. Ou seja, a cobrança existe — ela só mora dentro da Academia, longe do microfone. A presidente cobra internamente o mesmo que critica quando vem da arquibancada.
Não é incoerência que invalide a gestão, que tem números sólidos para mostrar. Mas é o tipo de fala que merece leitura crítica em vez de aplauso automático. Defender o trabalho de Abel é legítimo. Minimizar a cobrança da torcida usando o título como escudo, enquanto se cobra a mesma coisa por dentro, é a parte que não fecha.
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