Opinião
STJD reverte absolvição e suspende Paulinho; Palmeiras reage
Seis dias após absolver Paulinho por unanimidade, o Pleno do STJD reverteu a decisão e suspendeu o atacante. Allan também foi punido preventivamente.

Da absolvição unânime à suspensão em seis dias
No fim de maio, a Quarta Comissão Disciplinar do STJD absolveu Paulinho por unanimidade da denúncia pelo gesto na comemoração do gol contra o Flamengo, na vitória por 3 a 0 no Maracanã. Nenhum auditor viu infração. Nesta quarta-feira, seis dias depois, o Tribunal Pleno — instância máxima da Justiça Desportiva — acatou recurso da Procuradoria, reverteu a decisão e aplicou um jogo de suspensão ao atacante do Palmeiras.
Mesmo caso. Mesmo lance. Mesmo tribunal. O que mudou entre um julgamento e outro foi o recurso — e o enquadramento.
A troca de artigo que ninguém explica
A denúncia original enquadrava Paulinho no artigo 258-A do CBJD, que trata de provocar o público e prevê pena de dois a seis jogos. Foi com esse artigo que o atacante foi absolvido por unanimidade. No novo julgamento, o Pleno mudou o enquadramento para o artigo 258 — conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva —, que admite pena menor. Resultado: um jogo.
A leitura é incômoda, mas inevitável: se a provocação ao público não se sustentou nem para a pena mínima de dois jogos, trocou-se o artigo para que alguma punição coubesse. Condenação primeiro, enquadramento depois. E como o Pleno é a última instância no Brasil, não cabe mais recurso — só a Corte Arbitral do Esporte, na Suíça, e ninguém aciona a CAS por causa de um jogo.
A nota do clube e o padrão da relatoria
O Palmeiras reagiu em nota oficial e apontou um detalhe que merece atenção: a relatoria do caso ficou com a mesma auditora do processo de Abel Ferreira.
"O clube está muito incomodado com a decisão tomada nesta quarta-feira pelo Pleno do STJD, a partir do voto da mesma auditora que negou efeito suspensivo e foi a relatora do caso envolvendo a expulsão do técnico Abel Ferreira contra o São Paulo, determinando a suspensão do treinador por seis jogos (mais um pela expulsão contra o Fluminense, totalizando sete), em uma medida sem precedentes na história do órgão."
Não se trata de gritar perseguição. Trata-se de apontar padrão com fato: absolvição unânime revertida em seis dias, artigo trocado no caminho e a relatoria concentrada em quem já assinou a punição mais dura da história do órgão contra o técnico do mesmo clube. Desconfiança, aqui, não é paranoia — é aritmética.
Allan preventivamente fora — e a semana do tribunal
No mesmo dia, o STJD suspendeu preventivamente Allan pela expulsão na vitória sobre a Chapecoense. O julgamento nem tem data marcada, e o atacante já está fora até a decisão definitiva.
O retrato da semana é eloquente. No domingo, o Palmeiras venceu a Chapecoense e fechou a 18ª rodada na liderança, com sete pontos de vantagem. Na segunda, o clube divulgou nota rebatendo a narrativa de que teria sido beneficiado pela arbitragem. Na sequência, a própria CBF afastou o árbitro e a equipe do VAR daquela partida por falhas de procedimento. E na quarta, o Pleno encontrou espaço na pauta para reverter uma absolvição unânime e tirar dois atacantes do líder do Brasileirão.
A ressalva honesta
Dois registros que não serão varridos para debaixo do tapete. Primeiro: o gesto de Paulinho deu margem. Dedo levantado para a arquibancada rival, no Maracanã, depois de gol, vira processo em qualquer tribunal do planeta — o jogador entregou munição de graça, por mais legítima que fosse a explicação da união das torcidas de Vasco, Atlético-MG e Palmeiras. Segundo: na análise do jogo contra a Chapecoense, a comissão de arbitragem entendeu que o gol anulado da Chape deveria ter valido. Está registrado.
A conta da volta do Brasileirão
Na retomada do campeonato, contra o Coritiba, o Palmeiras não terá Paulinho, suspenso, nem Allan, afastado preventivamente. Vitor Roque segue em recuperação da cirurgia no tornozelo, com retorno previsto para agosto. O líder volta da pausa da Copa com o ataque pela metade — e boa parte dessa conta foi decidida em mesa de tribunal, não dentro de campo.
Um jogo de suspensão não derruba campanha nenhuma, e um time com sete pontos de vantagem aguenta o baque. O problema é o precedente: absolvição unânime virou punição em seis dias, com troca de artigo no caminho. Hoje foi um jogo. Amanhã, quantos serão?
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