Opinião
STJD vai julgar Paulinho por comemorar gol contra o Flamengo
Paulinho marcou no 3 a 0 sobre o Flamengo e pode pegar até seis jogos pela comemoração. Punir agressão, tudo bem. Mas comemoração virar processo?

O Palmeiras foi ao Maracanã, ganhou de 3 a 0 do Flamengo e devia ser só isso: três pontos, goleada na casa do rival e vida que segue. Mas a semana virou outra coisa. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva marcou para esta quinta-feira, às 10h, o julgamento dos desdobramentos da partida. E o nome que mais chama atenção na lista de denunciados é justamente o do autor do terceiro gol: o atacante Paulinho. O motivo não foi nada do que ele fez com a bola. Foi a comemoração.
Quem o STJD vai julgar
A Quarta Comissão Disciplinar do tribunal tem gente dos dois lados na mira. Pelo Flamengo, três nomes. Jorge Carrascal, que foi expulso ainda no primeiro tempo por acertar a sola da chuteira no rosto de Murilo, responde por jogada violenta no artigo 254, com pena de uma a seis partidas. O técnico Leonardo Jardim virou réu por reclamação desrespeitosa, no artigo 258, depois de dizer que "é muito fácil dar cartões vermelhos ao Flamengo" e que o árbitro "apita sempre para a mesma cor". E o massagista Fernando Munhoz foi denunciado por ameaçar a equipe de arbitragem no intervalo, o que pode render multa pesada e suspensão de meses.
Pelo Palmeiras, além do clube ser citado pelo princípio de tumulto, sobra para o Paulinho. Ele foi enquadrado no artigo 258-A, que trata de provocar o público durante a partida. A pena prevista vai de dois a seis jogos de suspensão. Segundo a súmula, o atacante se dirigiu à torcida mandante de forma ostensiva durante a festa do gol.
O tamanho da conta não fecha
Aqui é onde a coisa precisa ser dita com todas as letras. Bateu, agrediu, ameaçou árbitro? Pune. Pune com força, porque agressão e ameaça não são futebol e não podem virar rotina. Nesse ponto, o tribunal está certo e tem todo o meu apoio.
O problema é outro. Comemorar um gol pode dar de dois a seis jogos. Seis jogos é o mesmo teto de quem comete uma jogada violenta. Ou seja: a régua coloca empolgação de gol e porrada no mesmo balaio. É isso que não entra na cabeça. O futebol está ficando cada vez mais chato. O cara fez o gol, o momento mais importante do esporte, e a discussão da semana é se ele podia ou não festejar.
Não dá para querer que o jogador faça o gol, abaixe a cabeça, peça desculpas ao adversário e volte trotando para o meio de campo em silêncio. Futebol é emoção, rivalidade e provocação na medida. Sempre foi. Tirar isso é esvaziar o jogo.
Quando até a presidente concorda
E não é só torcedor revoltado que pensa assim. A própria presidente do Palmeiras, Leila Pereira, saiu em defesa do atleta e ironizou a denúncia, questionando se agora o jogador precisa pedir desculpas depois de marcar. Quando a mandatária do clube fala a mesma coisa que o torcedor grita do sofá, é sinal de que a interpretação ficou esquisita mesmo.
A régua que pesa para um lado
Para ser justo, é preciso reconhecer um detalhe: a denúncia aponta que houve gesto obsceno no meio da comemoração. Se foi isso mesmo, o tribunal tem previsão no código para analisar, e a imagem com a súmula vão decidir. Não é desse ponto específico que se reclama.
O incômodo é com o histórico. O Verdão contra o Flamengo já virou processo outras vezes. Abel Ferreira já foi julgado por gesto obsceno em jogo contra eles. E o zagueiro Gustavo Gómez chegou a ser denunciado por criticar a arbitragem depois de um clássico contra o mesmo adversário, mas acabou absolvido. Reclamar do juiz, no fim, não deu em nada. Comemorar um gol, agora, querem transformar em gancho de até seis jogos. É essa régua torta que precisa de uma conversa séria.
O que está em jogo
O resumo é simples. O Palmeiras ganhou de 3 a 0 dentro da casa do rival, e a repercussão virou sobre festa de gol e dedo apontado. Se o Paulinho pegar suspensão, o time perde uma peça importante num momento decisivo por causa de uma comemoração. Agressão e ameaça merecem punição, ninguém discute. Mas transformar reclamação e comemoração em processo é empurrar o futebol para um lugar cada vez mais sem graça.
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